Por Lauro Melo. ADELAIDE (Austrália)
Meus queridos irmãos flamenguistas, muito prazer!
O meu nome é Lauro, moro em Adelaide, na Austrália, e o pessoal aqui do blog me convidou pra escrever sobre a vida de flamenguista tão longe do Brasil. Numa frase com toda a sinceridade: é difícil, e o pior de tudo é que poderia ser bem mais fácil! Talvez nos anos 80 (mas aí precisaríamos das facilidades da internet…).
Extremamente desanimado com o a realidade atual do Flamengo, resolvi falar de algo mais abstrato: há alguma relação entre distância do Mengão e comprometimento, paixão ou dedicação? Às vezes escuto ou leio comentários de rubro-negros de fora do Rio dizendo que a paixão deles é maior por ser incondicional e flamenguistas do Rio dizerem que a deles é maior porque estão ali perto, acompanhando o dia-a-dia do time e jogos no Maracanã. Eu respondo: não há lógica em nenhuma das duas afirmações! Como posso responder isso tão seguramente? Já estive dos dois lados. Sou carioca, morei no Rio por 20 anos e depois comecei as minhas viagens por aí. Aqui vai um pequeno resumo da minha história, desde as vizinhanças do Maior do Mundo até o outro lado do planeta:
Rio
Primeiro jogo que é uma lembrança efetiva: Flamengo e botafogo pela final do campeonato carioca de 1989. Eu já tinha ido ao Maraca outras vezes, mas só tenho “flashes” de lembrança. Já este jogo, lembro bastante. Lembro da torcida mais bonita da Terra, mesmo num dia de tristeza já que perdemos aquela final pro time que há 21 anos não conquistava nada com um gol altamente discutível do Maurício deslocando/empurrando o ainda garoto Leonardo (hoje técnico do Milan e a esperança de muitos pra trazer o Mais Querido aos eixos novamente). A lembrança mais clara que tenho daquele jogo sou eu e o meu pai correndo pra Praça da Bandeira pra pegar o ônibus pra casa. Não tenho uma má lembrança desse jogo. No fundo, é uma lembrança boa, parte da formação de um torcedor. Eu e meu pai, tristes mas conscientes de que a derrota faz parte do jogo, correndo juntos pra pegar o ônibus. Há lógica nisso? Naquele dia, não vi distância alguma naquele trecho de quase 2 quilômetros entre o Maraca e a Praça da Bandeira. Alguns anos depois, em 1992, tentei ir à final do Brasileiro contra o mesmo Botafogo e não achei ingresso. Fiquei do lado de fora. Tão perto, poucos metros, feliz por ser campeão mas, ao mesmo tempo, não fiz parte da festa.
Viçosa (MG)
Começo complicado. No ano que saí do Rio, quando fui pra Viçosa (salve salve EAL 97), tive dois momentos difíceis. Ainda no Rio, eu e um amigo deixamos de viajar pra Cabo Frio no carnaval com outros amigos para ir à final do torneio Rio-São Paulo de 1997 no Maracanã. Flamengo e Santos, título do Santos. Tivemos que viajar pra Cabo Frio no dia de maior engarrafamento, quase sete horas numa viagem que em condições normais leva menos de duas! Frustrados, mas não arrependidos! Há lógica nisso? Alguns meses depois, no mesmo ano, final da Copa do Brasil, Flamengo e Grêmio, também no Maior do Mundo. Eu já estava em Viçosa, viajei 6 horas de ônibus pra ver esse jogo! Há lógica nisso? Pela segunda vez no mesmo ano, perdemos a final.
A redenção com o Tetra-Tri ainda em Viçosa. 1999: vi a final em Minas Gerais cercado por vascaínos, um gostinho a mais ao ser campeão. 2000: peguei o mesmo ônibus Viçosa-Rio desconfortável e pouco confiável de sempre pra ver o bi! Ainda lembro de depois do jogo comemorar com os amigos e um novo mascote: Ziquinho, um boneco vestido de Mengão que um amigo tinha levado. 2001: assisti o primeiro jogo da final num churrasco em Viçosa. Após o resultado ruim, precisaríamos vencer o segundo jogo por 2 gols de diferença e o time do vasco era considerado melhor. Eu e um amigo de Viçosa, também flamenguista e carioca, já tínhamos combinado de ir ao segundo jogo da final no Rio. Mas depois do primeiro jogo tenho que confessar que bateu aquela dúvida. Será que valeria a pena comprar uma passagem, passar uma noite dentro de um ônibus pra ver uma final tão difícil? Naquele mesmo dia fizemos um pacto de ir ao jogo, independente de qualquer coisa! Há lógica nisso? O resultado nem preciso contar. Aquele gol de falta mágico do Pet e Tetra-Tri! 400 quilômetros inesquecíveis!
Campinas (SP)
Final da Copa do Brasil entre o Mengão e o Vasco e eu morando em Campinas. Jogo quarta-feira, eu só poderia ir num ônibus terça-feira à noite, chegar no Rio na quarta de manhã e voltar na quinta. Há lógica nisso? Essa é fácil, eu respondo! Há! Já que o vasco é o nosso eterno vice! Dito, feito e comprovado! 500 quilômetros de certeza.
Raleigh (Estados Unidos)
Cada vez mais distante e ainda aprendendo a acompanhar o Mengão estando em outro país e usando a internet, vi a vitória sobre o botafogo na final do carioca de 2007 através de um site que mais congelava do que tudo! Passei raiva e angústia (há lógica nisso?) mas saí campeão! 7260 quilômetros de alegria.
Adelaide (Austrália)
Dessa vez, vim longe! Nem dá pra ser mais longe… O pior de tudo é o fuso horário. Quando o jogo é final de semana à tarde, é madrugada aqui. Quando é dia de semana à noite, é horário de trabalho aqui… Mas sempre que posso fico acordado de madrugada pra ver o jogo ou diminuo a produtividade no trabalho pra acompanhar o Fla no computador em tempo real! Há lógica nisso? Mas já tive algumas alegrias aqui. A primeira delas foi surreal! Todo um ciclo que se fechou. Logo que cheguei, o time daqui, Adelaide United, estava jogando a Liga dos Campeões da Ásia e o próximo jogo foi contra o Kashima Antlers. Claro que fui e qual foi a minha surpresa? Chego lá e a torcida do Kashima que veio do Japão pra acompanhar o time usa uma bandeira vermelha com o rosto do Galinho sombreado igualzinha à usada no Maraca! Que felicidade! Que alegria ver o Zico homenageado, gratuitamente, do outro lado do mundo! E olha que eu nem sabia o que ainda estava por vir. O Adelaide United passa à fase seguinte e pega um time do Uzbequistão. Já é difícil ouvir falar do país, imagina do time! Mas aí vem a segunda grata surpresa: leio na internet que o Galinho virou o técnico deste mesmo time! Aí não teve jeito: mesmo contra os meus princípios, virei “tiete” de porta de hotel. Fui pra lá vestindo o Manto Sagrado e o lado bom de estar tão longe é que eu era o único. Encontro especial! Resumindo, encontrei o Zico, conversamos, tiramos fotos e comprovei que ele, além de tudo, é um cara gente boníssima! A sua história e importância, nem preciso falar pra nenhum flamenguista ou mesmo amante do bom futebol. Hoje vejo que foram 13940 quilômetros de peregrinação pra encontrar o Galinho!

O Galinho e eu, em Adelaide
Há poucos meses, ainda consegui acompanhar o Penta-Tri enquanto me arrumava pro trabalho numa segunda-feira de manhã (ah, o fuso…). Mas bendita seja a internet porque além de conseguir assistir o jogo, ainda comentava em tempo real com um amigo em Portugal. Aquele Penta-Tri também é nosso, cada um no seu canto do planeta mas com a alma no Maraca! Pois é, todos nós rubro-negros espalhados pelo mundo, na verdade, estamos juntos! Nenhuma distância nos separa! 13940 quilômetros que o digam!
Saudações Rubro-Negras!